segunda-feira, 3 de outubro de 2016

ELOGIOS DA LOUCURA - Erasmo de Rotterdam

      Erasmo, nasceu Rotterdam, em 27 de outubro de 1465. Erasmo, derivado do latim e grego, Geraldo, nome de seu pai, e tornou-se célebre com o nome de Desidério Erasmo e faleceu aos 71 anos. Entre os famosos de sua época está Tomás Morus. Ambos beberam da mesma fonte, a fonte da sabedoria, da dedicação da crítica do ser humano. Publicou Utopia, de Morus, que foi editada  em Basileia (Suiça), que conheceu em Oxford, onde estudava e desta amizade o amigo lhe faz uma dedicatória com o livro Elogios da Loucura, que se pode ler numa carta enviada a Morus.
   "Encontrando-me, há dias, de retorno à Itália, para a Inglaterra, para não despender todo o tempo da viagem em insípidas fábulas, dei preferência em distrair-me, já voltando o espírito para os nossos estudos comuns, já relembrando os sapientíssimos e igualmente muito agradáveis amigos que eu deixava ao partir. E foste tu, caríssimo Morus, o primeiro que surgiu ao meus olhos, visto como, não obstante tamanha distância, eu via e conversava contigo com idêntico prazer, que em tua presença costumava sentir e o qual juro que não experimentei maior em minha vida. Não querendo neste interregno, ser tido como indolente, e não me parecendo serem as circunstâncias apropriadas aos pensamentos sérios, achei que me convinha divertir-me com um elogio da Loucura? _ indagarás a mim. Pelo motivo que segue: no início fui dominado por essa fantasia devido ao teu gentil sobrenome, tão idêntico a Moria (loucura em grego) quanto em realidade estás distanciado  dela e, certamente, mais distante sobretudo do conceito que se tem dela [...]. Contudo, por que razão hei de te dizer todas essas coisas, se tu és eminente advogado, capacitado de modo egrégio ainda as causas menos propícias? 
    Sem mais, eloquentíssimo Morus, faço votos que estejas no gozo de tua saúde e tomes com todo ânimo a parte de tua loucura."  
                                               VILA, 10 de junho de 1508

          Em Elogios da Loucura, o autor satiriza os sábios, o clero e a justiça e pintou a alma humana com ironia de um louco, com pilhérias. 

     Já no início da narrativa fala do aforismo que diz: " [...] não tens que te faça um elogio? Elogia-te a ti mesmo." Essa referência que fez foi para atingir de maneira universal, a falta de elogios e pelo "[...] profundo desprezo não sei se pela ingratidão ou pelo fingimento dos mortais.", quanto a ele havia uma veneração muito grande. 
   "Tudo quanto os homens fazem está cheio de loucuras. São loucos tratando com loucos." O autor vai enriquecendo o livro com filósofos, com a mitologia com deuses e deusas. "Esclarecei-me se existiu uma só cidade que tivesse adotado as leis de Platão e de Sócrates, ou as máximas de Sócrates." O que os sábios exclamam: "[...] pode existir loucura maior do que a de um candidato que adula de modo suplicante o povo para conquistar honras  que adquire o seu beneplácito à custa de liberalismo?" O homem chega a agregar honras divinas, e aqui me reporto para os salvadores, reis, rainhas que adotamos sem mérito. Ainda aponta para "[...] as cerimônias públicas que efetuam para acrescentar ao número dos deuses os mais celerados tiranos." Eram cerimonias romanas que até os dias de hoje se copiam através da mídia com honrarias e troféus, [...] fala de Homero que apesar de cego, enxergava essas verdades: "O tolo - disse ele - aprende à sua custa e apenas abre os olhos depois do fato." Repito sempre nos  meus comentários falados ou escritos que não se faz fortuna com trabalho e que dinheiro não cai do céu e veja o que diz o autor: "Raros são aqueles que sabem que, para conseguir fortuna, é necessário não se ter vergonha de nada e tudo arriscar." O contrário do risco é a prudência e esses jamais enriquecerão, continua a narrativa porque sabem fazer o julgamento.
     "O que está fora de qualquer dúvida é que os filósofos, quase por universal consenso, ridicularizam a advocacia e, com grande propriedade, qualificam esse mister como ciência  de burro. Entretanto burros ou não, serão sempre eles os interpretes das leis e os reguladores de todos os negócios." Na Idade média era assim, antes dela também e nos tempos modernos, nessa contemporaneidade do século XXI, nada mudou, continua sendo a 'ciência do burro', assim a ciência se divide em três pensamentos, os que fazem dela continuar sendo a burrice dos burros, os que finge que é a ciência dos burros, e os que conhecem bem a ciência dos burros
   "Querem os advogados levar de vencida todos os demais eruditos e fazem enorme conceito de sua arte. Ora, para usar de franqueza para convosco, a sua profissão e, em derradeira análise, um verdadeiro esforço de Sísifo. Efetivamente, eles determinam uma porção de leis que não levam a qualquer conclusão. Que coisa são o digesto, as pandetas, o código? Um acervo de comentários, de glosas, de citações. com toda essa confusão, fazem acreditar ao populacho que, de todas as ciências, a sua é aquela que necessita o mais laborioso e sublime engenho. E, como acontece julgar-se mais belo o que é mais difícil, sucede que os estúpidos têm um elevado conceito essa ciência." Cita Sísifo, condenado pelos poetas a rolar uma pedra montanha acima e assim que se aproximava do topo deixava escapar.  "Na sabatina no Senado a que foi submetido como um dos requisitos para se tornar ministro do STF, em junho de 2013, Luís Roberto Barroso afirmou que o mensalão representou "um ponto fora da curva". No raciocínio de Barroso, a curva representa o funcionamento do direito em condições normais. Cada sentença judicial ­ cada 'ponto' ­encontra o seu lugar perto de certo acordo de base ­ a 'curva' ­, que representa uma espécie de 'sentença ideal' a reunir casos semelhantes." O acordo de base passa perto da curva, mas não é tangencial, o que seria uma 'sentença ideal'. Por que, pensou Barroso, dessa forma? Observe o direito e suas análises, suas sentenças: Sísifo parte da base para chegar ao cimo em linha reta, com uma pedra; Barroso imagina a base como um acordo que se faz, embora não seja o ideal, mas como Sísifo, o esforço é inútil, já que o ponto não toca a curva. As sentenças, as análises continuam como o próprio autor ironiza uma ciência de burro.
   "Cui licitus est finis, etiam licente meia." Frase de Hermann Busenbaum S.J., alemão que viveu entre 1600 a 1680 e escreveu um manual de casuística com o nome de Medulla Thologiae moralis, com 200 edições: "Se é lícito o fim, também são os meios." Perante a sentença: os fins justificam os meios. Essa sentença foi dada como sendo de Maquiavel, mas apenas lembrado no Príncipe, cap. XVIII "[...] os homens universalmente julgam mais pelos olhos que pelas mãos, pois que a todos é dado ver, mas a poucos sentir. Todos vêem aquilo que tu pareces, poucos sentem o que és, e estes poucos não se atrevem a opor-se à opinião dos muitos que têm a majestade do Estado que os defenda; e nas ações de todos os homens e principalmente nas dos príncipes, das quais não se pode recorrer, se atende ao fim. Faça, pois um príncipe por vencer e por manter o seu Estado; os meios serão sempre julgados honrosos e de todos louvados. Porque o vulgo deixa-se sempre levar pela aparência e o sucesso das coisas; e no mundo não há senão vulgo e os poucos só têm lugar quando os muitos não têm em que apoiar-se". Paulo Laymann J.S., advogado (1574-1635) diz: "Cui concessus este finis, concessa  etian sunt média ad finem ordinata; Ilsung, em arbor scientiae: Cui licitus est finis, illi licet etian medium ex natura  sua ordinatum ad talen finem." Esta sentença não tem o sentido que geralmente lhe atribuem os adversários dos jesuítas. Ela quer dizer que se é lícito aspirar um fim, é também lícito empregar os meios para consegui-lo. A riqueza em si é um bem lícito, por exemplo, é também lícito, trabalhar para obtê-la. Isto não quer dizer que para enriquecer seja permitido usar de meios desonestos, pois não se disse que o fim é lícito, legitime todos os meios, embora ilícitos. Empregava-se o seguinte aforismos na Idade Média: "Cum fovet fortuna, cave, nanquam rota rotunda." (Quando a fortuna te for favorável, toma cuidado, pois a roda gira). Sêneca, filósofo romano emprega o verbo em latim beneficiumhoje empregado em toda a Itália como beneficiare, verbo reflexivo, assim beneficiar-se, nos leva a  questionamentos diversos. Nem todo benefício nos remete para um fim lícito: "Benefícium non est, cujus sine rubore meminisse non possum." ( Não é um benefício aquilo de que não posso me lembrar.) Nem aqui, nem acolá e muito menos na China, não devemos nos beneficiar através de jeitinho que possa ser implantado aqui de forma a prejudicar o outro, assim nos atentamos para a interpretações de nossas leis, sem nenhum beneficium, qualquer que seja nesses tempos bicudos. Não deixe ler Elogios da Loucura.

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