segunda-feira, 29 de agosto de 2011

TRABALHADORES DO MAR - Victor Hugo

          A narativa se prende as lutas do homem, como religião, sociedade e a natureza.    Estas três lutas vem das três necessidades: crer, criar e viver.
        Tudo se passa na ilha de Guernesey (no arquipélago do canal da Mancha).
        Gilliat e Déruchette, os dois personagens criados para a partir daí travar a luta ora sob a superstição, ora sob o preconceito.
        As artes do diabo assustavam os pescadores do mar que se ajoelhavam diante do rochedo Ortoch. Ele inquietava muitas mulheres ortodoxas, que apareciam grávidas. Sendo procurado  por uma mulher o padre aconselhou, apalpe-lhe a cabeça, se encontrar pontas, pode estar certa, é o diabo.
        Gilliat cresceu e viveu na ilha com sua provável mãe que faleceu quando este era adolescente. Ninguém sabia exatamente o parentesco entre os dois e nem a origem. Ele era rústico, tornou-se feroz. Era solitário, isto causava espanto já que sua casa era mal-assombrada antes da vinda deles para a ilha.
        Passava a noite nos penhascos e tocava uma bagpipe (gaita escocesa). Não o achavam pobre, possuía uma casa e alguma terra. Perguntado por uma rapariga quando se casaria, respondeu-lhe: "Casar-me-ei quando se casar a Rocha que Canta".  Era uma pedra que inspirava desconfiança. Um galo invisível cantava próximo dela.
      O narrador aponta duas características diferentes para Gilliat: de um lado o diabo (pela esquisitice que ao mesmo tempo levava ao preconceito) por outro lado, o curandeiro (curava com ervas de sua propriedade, panarícios e febres,...)
      Tinha uma canoa e pescava nas horas de descanso.
      As raparigas o achavam feio. Talvez fosse bonito. Assemelhava-se a um bárbaro antigo e era tisnado pelo sol.
      As moças da ilha eram boas esterqueiras e por este motivo arrumavam casamento. Apanhavam os estercos de vaca e jogavam na parede para aquecimento das casas, com as mãos.
      Gilliat nasceu piloto. Piloto do mar. Comprou uma pança, bojuda e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas asas que se batiam alternadamente, conforme o vento, e supriam a quilha. Era mastreado na frente o que aumentava a força de tração do velame. O mastro não impedia a carga. Era uma pança sólida, pesada e suportava bem o mar. Nenhum pescador conseguiu arribar o barco. Gilliat tentou: empurrou o remo e depois a grande escota e tantas outras manobras e fez-se ao largo em direção a barra. Um forte vento sul empurrou-a carregada de pedras e entrou em Saint Simpson.
      Pescava na pança e dava os peixes aos pobres. Era marceneiro, ferreiro, fabricante de carros (calafates), e um pouco mecânico. Possuia uma bigorna e uma pequena forja. Fez uma âncora e substituiu os pregos por   cavilhas, deixando-a em boas condições.
       Os antigos habitantes de Guernesey arrastados pela beleza da vista admiravam a beleza das rochas da ilha que talhadas pelo vento formavam figuras: a Cadeira de Gild Holm-Ur em francês Qui-Dort-Meurt (Quem-dorme-morre) tradução rústica.
        Gilliat sentava-se ali. Sonhava. A maré subia. Morria-se afogado naquele lugar. Até 1822, era uma novidade um navio no canal da Mancha. Franceses e ingleses se cruzavam. Se partiam: "Boa viagem!; se chegavam "Welcome". As  ilhas  do canal da mancha iam se fazendo  inglesas, mas a língua era a francesa " a velha língua do mar" para definir lados e peças do navio. O narrador chamou de língua autóctone. O francês das ilhas costumava empregar a expressão "peguei-te inglês" para um inglês que caía numa armadilha pelo canal.
         Aparece na narrativa dois marinheiros selvagens. O primeiro é Gilliat e o segundo é Lethierry. Sendo  este último, elegante, admirador de lindas mulheres de mãos alvas, adotou sua afilhada órfã, filha de um irmão que ele teve, a Déruchette. Esta cresceu e tornou-se exigente, provável herdeira do tio. Tocava no piano "Bonny Dundee". Gilliat executava a mesma canção na bagpipe, próximo a casa de Déruchette, nas noites escuras e sempre no mesmo horário e ela não gostava.
          Lethiery não era superticioso, não recuava nas tempestades. Possuia a Durande, um navio que lhe rendeu muito dinheiro, e pretendentes a Déruchette.
         Já cansado e sentindo-se velho, entregou a Durande ao capitão Clubin, homem que escondia, debaixo de um véu, um crime. Foi o primeiro a possuir um revólver na ilha causando alguma desconfiança.
     Cobrou uma conta para Lethierry, que considerava perdida. Eram 60.000 francos que Clubin ficava pensando em transformá-los em 600.000 francos quem sabe pela América. De passagem por alguns portos fez carregamento de bois, fardos, sabão, couro, chá e outros. Havia seis passageiros e sete tripulantes.
     A linha reta do mar nem sempre é a linha lógica. Os navios fazem um trajeto e o barco a vela outro. O mar e o vento fazem um composto de forças. O navio é um composto de máquinas. As forças são máquinas infinitas, as máquinas são forças limitadas. Trava-se um combate que se chama navegação. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhe o itinerário. A Durande andava maravilhosamente bem.
     Clubin tinha um plano: fazia desaparecer o navio, atiraria-se ao mar,  uma hora a nado, só uma milha, estava no Hanois, próximo ao formidável rochedo, Douvres. Era medonho o recife ali isolado. O nevoeiro, os escondera. Eram gêmeas as rochas. Parecia perfeito para o plano, mas tinha os seus perigos. Um outro maciço próximo parecia próprio para galgá-lo. Chama-se Homem. Esta rocha era ainda mais alta que as Douvres e ficava a cinco léguas do navio. Para o náufrago, o impossível. A morte por frio. Os 60.000 francos de nada serviriam.Não era Hanois. Era a captura, agonia, o sepulcro. Poderíamos arriscar a dizer que era a justiça divina já que precisava pagar por um crime, dois.
     Soprava o vento. Os bois berravam no porão. A neblina cobrindo tudo, o céu que reaparecia e ficava noites em questões de segundos. Era o horror. Clubin tinha a força de um touro. O mar não podia com ele. Era sóbrio e frio. Parecia simplório. Certa vez disse ao taberneiro: "Restitui-lhe 75 cêntimos, que cobraste a menos quando estive aqui..." 
     Aconselhou-lhe um capitão amigo, não saia. Os cães tem o pelo molhado, os vermes saem do chão e as moscas mordem. Ouve-se um sino ao longe. Tudo indicava que teria nevoeiro. Não lhe digo que parta. Temo mais o nevoeiro que o furacão.
     Clubin errara o caminho. Outros navegadores, no passado, também. Arquiteto laborioso de sua própria emboscada. A tempestade, a noite que se aproximava, a Durande levantada pelo mar, ora pela esquerda, ora pela direita, o demônio tomou seu lugar. Os bois, a carga, o timoneiro, ébrio. Aquele que se cobria com uma armadura rígida, vivia numa pele de homem de bem, acreditava estar bem sucedido. Era o fantasma da retidão. O açúcar no veneno.
      A situação era desesperadora. A Durande naufragara em plano enclinado de popa e proa. Todos salvos pela chalupa, ele, o capitão ficou.
       Estava a 200 metros do rochedo Homem, próximo ao porto de St. Pirre. Era fácil atingi-lo a nado. Despiu-se, amarrou os francos a cintura e jogou-se  ao mar.
     Perdeu-se a Durande nos rochedos Douvres antes do por-do-sol, cochichavam os grupos em terra. O capitão portara-se com dignidade, ficara  no navio. Que homem!
     Lethiery,
o marinheiro, perdera sua obra-prima. Pobre velho! Déruchette lacrimosa.
     Quem iria aos rochedos para salvar o navio, a máquina talvez. Ninguém. Era arriscado. E os paredões. Impossível. Quem ali descia não subia jamais. Se existisse alguém que se arriscasse a chegar a Durande, Déruchette 
se casaria com ele e dava a palavra de honra a Deus.
     
Gilliat,
o engenheiro, se apresentou.
      Partiu com a pança, não esqueceu de nada. Os dois rochedos e o cadáver da
Durande... Era dia claro quando Gilliat chegou
. O escolho era horrível, altivo e arrogante. Impossível atracar. O navio vencido, o abismo vitorioso.
      Deitou a sonda muitas vezes, fazia um desembarque de malotagem: um saco de biscoitos, um saco de farinha de centeio, carne defumada, água, camisas de lã, uma japona e uma pele de carneiro..
     Dali avistava a pequena ilha de Sark algumas milhas das ilhas Jersey (hoje paraíso fiscal) de grande movimento turístico.
      Travou-se uma luta para desembarcar ali. As rochas eram escorregadias e não havia um só lugar que fornecesse porto seguro. Amarrou a pança numa ponta do rochedo. Aproximou-se da  Durande que estava presa, suspensa, trabalho de furacão que tinha a torcido.  O navio quebrou-se como uma ripa. Um pedaço da popa, com a máquina, preso a garganta, entre os dois rochedos. A proa , rolada e levada pelo vento, deslocou-se para os bancos de pedra. Os bois mortos jogados no mar.
      Não podia permanecer ali, tudo era impossível. Não servia de fuga para um criminoso e nem para um ninho de pássaro.
      No rochedo Homem, havia uma plataforma, inacessível. A grande Douvre não podia subir. De fenda em fenda chega a
Durande, que estava no ar. Era sinistro. A tempestade foi pirata. Ninguém, nenhum animal estrangula a pedra como o ar. O vento morde, o mar devora. É um socar e um esmigalhar ao mesmo tempo, igual a pata de um leão, o golpe do mar.       A máquina estava salva o que não impedia de estar perdida.
      Gilliat prendeu alguns ganchos, tentou subir, bateu no rochedo, machucou-se. Atingiu a plataforma. Havia uma cava, uma bacia. Isso era bom. Parecia um túmulo de pedra. Acomodou-se.
      Ir e vir, subir e descer. Trabalhava desde o amanhecer até o deitar do sol. Comia.
      Gilliat visita uma caverna, grotas ferozes, demorava-se nelas, não era conveniente aquele lugar. A maré enchia rapidamente até o teto. Era um edifício debaixo do mar. Viu uma coisa nojenta, era um ente, uma aparência. Sinistra.
Ignorar convida a tentar. Saber, desconcerta às vezes, e desaconselha  a tentar.
              Gilliat gastava todas as suas forças, dificilmente as refazia. Estava magro. Pés descalços. Mãos e braços com chagas. Tinha fome, sede e frio. Esgotava-lhe a vida.
       Deu de comida aos pássaros e estes lhe indicaram o caminho da água. Comia concha crua, que serviam de refrigerante. Assava os caranguejos.
       A chuva gelada atravessava a roupa até a pele e da pele até os ossos. Estava abandonado, isolado e esquecido. Não havia mais o que comer, as mãos e os pés não curavam mais, dilacerados. A perda da força não esgotava a vontade. Cria e queria. Não sentia cansaço. Era um Jó bíblico.
        Onde começa o destino? Onde acaba a Natureza?
        
As enormidades da noite:
"Sou uma alma como vós" "Sou um abismo como tu".
              Gilliat fez um trapiche. A pança deveria subir com a maré. Argolas, correntes, roldanas, cabos eram o que precisava para transportar a máquina para a pança. Construiu um aparelho, viu as polés e verificou as emendas. Tudo examinado. Limou a argola que faltava. Houve um estalo, abriu-se o ventre da
Durande. Nem tudo estava acabado.        Gilliat trabalhava. Respondia o trovão com uma martelada. Fez um trapiche. Tinha fome. Tinha uma sede ardente. Tinha febre, talvez.

      O temporal. A chuva. A pança foi jogada. A claraboia estava quase concluída.
      A tempestade se afastou. Era só o começo. Outra se aproximava, do norte. Violento assalto. "Os marinheiros chamam isso de  vento de esborear. O vento sul tem mais água, o vento norte tem mais raios".
      As avalanches de neve que o mar ajunta, debaixo das quais engole rochedos de mais de 100 pés de altura. Tudo acontecia ali mesmo em Guernesey e em Jersey. O rolo do mar tapou tudo. Gilliat permanecia de pé. Realizou-se tamanho perigo. Fez-se a efração. Foi uma agonia de moribundo. O quebra mar despedaçado. Uma tábua bateu na cabeça. Este cismava trêmulo.
      Passava-se ali alguma coisa funesta. Era o lado da pança. Gilliat correu. A Durande se separou em duas. Era a catástrofe. A pança salva. O terrível se fez horrível. Nada mais horrendo. E a hora hedionda.
     Gilliat voltou a gruta. Pôs a faca nos dentes, desceu do alto das rochas e saltou na água. Entrou, havia um raio de luz. De repente, sentiu que lhe agarravam no braço.
       Um susto. Atirou-se para trás. Aquilo que era flexível como couro, sólido como aço e frio como a noite, vinha do buraco. Lambeu o corpo nu de Gilliat, apertou, queria beber-lhe o sangue.
        A angústia é muda. Nem um grito. O fantasma era enorme. Estava agarrado por correias e por muitas bocas. Gilliat não podia respirar. Era viscoso e tinha dois olhos. Era um polvo de 2,5 metros de diâmetro. O polvo odeia.  Hipócrita estrela-do-mar. Voraz. É peixe. É réptil. É um cefalópode.
        Nunca se deixe apanhar por um deles. Estão pelas rochas. Costuma desenrolar-se e atirar-se sobre  o infeliz.
        Amarelo com cor de poeira, é cinza, é camaleão. Irritado torna-se roxo. Tem a cor da gangrena. Aquele pavor tem seus amores e torna-se fosforescente a noite para amar.
      O polvo, pensa-se, pode levar um navio a pique. O  autor diz que viu um banhista sendo atacado por um, caçado e trazido para a praia media 4 pés ingleses de largura, com quatrocentos chupadores. O mostro agonizante afugentava todos de perto.
     O tigre devora. O polvo aspira. O primeiro come vivo e o segunde bebe vivo. Equivale a oito serpentes.
      Precisa agir. "Negais o vampiro, aparece o polvo". Esses vorazes são coveiros. Gilliat era a mosca na aranha.
     Havia um momento certo para vencer o polvo, como o touro. Este curva o pescoço, aquele estica a cabeça. Sentiu a sucção das 250 ventosas. Não soltou a faca. Ele olhava o polvo e o polvo olhava para ele. Sangrava e estava preso. Precisava de um só golpe. O centro da cabeça. Se lhe agarrasse o peito estava perdido.
     Gilliat esperou, golpe certeiro, no centro, ali, exatamente como aprendera. Fez a faca girar. Estava acabado.
      Salgou seu corpo ferido. Caminhou. Olhou para dentro da cava. Estremeceu.

 Alguma coisa ria para Gilliat. Era uma caveira. Esqueleto completo.  Quem era aquele homem? O que era aquilo envolto ao esqueleto?
     Um cinto intacto. A caixinha de ferro. Abria-se por molas. Estava enferrujada. Usou a faca. A caixa abriu-se. Papéis e 75.000 francos e mais 20 guinéus. Limpou o couro do cinto e leu: "Sr.Clubin".
     Ali travara-se uma luta entre dois monstros. Um agarrou o outro. Sinistras justiças. Clubin foi o engodo do polvo e alimento para os caranguejos.
     Precisava partir pela manhã, com a maré ainda baixa. Já era maio e os dias estavam longos.
    O cano da máquina acima da pança, estava coberto pela espuma da tempestade e tinha uma camada de sal. A pança fazia água. Precisava procurar o buraco a luz da lua.
     A lua desapareceu. Não tinha nada seco e nem um sebo para fazer uma lamparina, nem fogo, nada.
     Só tinha aquela roupa seca. Tirou. Ficou nu. Tremia. Tinha pressa.
    A solidão o envolvia. O vento assoviava. Já lutara corpo a corpo com o oceano.
   Trabalhou sem ferramentas adequadas, carregou fardos sem auxílio e resolveu problemas sem ciência. Comeu sem ter o que comer, bebeu sem ter o que beber e dormiu sem ter onde dormir.
     Venceu: a fome, a sede, o frio, a febre, o trabalho e sono.
     Depois da nudez, o elemento; depois da maré, a tempestade; depois da tempestade, o polvo e depois do polvo o esqueleto.
     Que ironia Clubin rindo para ele. O morto tinha razão. Via-se perdido. Via-se tão morto como ele.
     O inverno passado ali, a fadiga, o transporte da máquina para a pança, tudo isso não era nada diante do buraco feito na pança.
     Subiu o rochedo. Fechou os olhos...
     Parecia não acreditar, ele não estava morto. Suspirou. Vivia. O sol o aqueceu. O calor o abraçou.
     Consertada  a pança com o vento de feição e o mar admirável aportou em Saint-Simpson em Guernesey.
     Quem sabe se ao sair do escolho não entoasse a canção Bonny Dundee.
     Lethiery era prisioneiro da tristeza. No tempo que era feliz, Deus existia, em carne e osso, apertava-lhe a mão. Para ele tudo era negro. Não rezava.
     Déruchette raramente sorria. Parecia preocupada. Não fazia cortesia ao sol: "Bon...jour!... queira entrar". "Sua alegria apagava-se dia a dia, e cobria-se de poeira como a asa de uma borboleta que um alfinete atravessou".
     Lethierry recebeu uma carta de "Rontaine" dizendo que lhe mandara os 75.000 francos por Clubin.
     Deruchetty não perdera o hábito de sair ao jardim pela noite. Andava alguém por ali. Era Gilliat. Estava pálida, lágrima nos olhos.
Gilliat ouvia essas palavras: "Vejo-a todos os domingos e quintas; disseram-me que outrora a senhora não ia lá tantas vezes...Nunca lhe falei, era o meu dever; falo-lhe hoje, é meu dever... O Cashmere parte amanhã; foi por isso que vim... A senhora é pobre. Eu sou rico desde esta manhã. Quer-me por seu marido? ... tu és a minha noiva. Levanta-te e vem. Que o teto azul, onde estão os astros, assista a esta aceitação da minha alma para tua alma, e que o nosso primeiro beijo se misture ao firmamento!"
   Pela manhã Gilliat entra pela sala: "Ah! Meu Filho! Homem da bagpipe! Gilliat! Tocava o sino, te procurava. Onde esta ele? Tu és um anjo. Belisco-me. Tu és meu filho, és meu rapaz, és meu Deus. Nunca vi coisa assim. Vi parisienses que são uns satanáses. Não faziam isto. É pior que a Bastilha"...
"Vi os gaúchos lavrarem nos pampas, tendo por charrua um galho de árvore do comprimento de um côvado e por grade um feixe de espinhos puxados por corda de couro; colheram com isto grãos de trigo do tamanho de avelãs. Os gaúchos não valem dois caracóis perto de ti".     "Senhores, ele foi a Douvres!" Gilliat entrega-lhe os francos. "Compraremos pinho, carvalho, olmo. Que bela Durande vamos fazer, mais comprida. Dinheiro suficiente". "Casas com Déruchete". Gilliat respondeu: "Não a amo". "Há alguma coisa! Não amas Déruchette! Era então para mim que tocavas a bagpipe? Pois trate de amá-la. Só se casará contigo. Estás doente?

       Lethiery não foi ao casamento de Déruchette. Segundo o belo rito do casamento anglicano, o decano olhou em volta de si, e fez a solene pergunta:
     __ Quem dá esta mulher a este homem?
     __ Eu __ disse Gilliat.
     O noivo, Ebenezer e Déruchette sentiram uma vaga opressão através de sua felicidade.
     Depois de prometidos, o decano continuou.
     __ Onde está o anel?
     O noivo não tinha o anel.
     Repito aqui que quando Gilliat perdeu a mãe ficou desolado. A mãe lhe deixara duas arcas de carvalho. Dentre os móveis que ficou  havia uma espécie de cesta (caixa, canastra) que Gilliat abriu e encontrou um enxoval do mais puro linho e belas roupas com um bilhete "Para tua mulher quando te casares".
     __ Decano, está aqui o anel. Gilliat tirou do dedo. Comprado, provavelmente no dia em que chegou das Douvres, para Déruchette.
     O casal se ajoelhava diante de Deus: "Em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo". Gilliat curvava-se ao destino
monstro declarado seu marido. O anjo prestes a partir.
      Gilliat não teve outra ocupação senão a de casá-los; fez tudo: respondeu por Luthiery.
       Dentro de poucos minutos estariam na Angrazinha. Gilliat os acompanhou.
       __ Senhora __ disse ele __ achará a bordo do Cashmire uma caixa com objetos de mulher. Foi minha mãe que mo deu, com um bilhetinho: "Para tua mulher quando te casares".
     
__ Por que não há de guardá-lo para sua mulher quando se casar.
      __ Não me casarei nunca.
      Gilliat seguiu para a barra e o Cashmire abriu as velas. A manhã tinha um quê de nupcial. Ouvia-se no ar um grito de saudação.
A vida que é a esposa, abraçava o infinito, que é o esposo.       Na relva as margaridas, as violetas, as abelhas trabalhando...
      Galgou o parapeito e desceu os arrecifes. Era ali que ficava a Cadeira de Gild-Holm-Ur. Passava de um recife para outro. Uma pescadora gritou:
       __ Cuidado. A maré esta enchendo. Gilliat continuou a andar. Acabava a terra...
       Subiu. Olhou. O Cashmire iria passar por ali. O casal parecia como pássaros. O silêncio era celeste.
      __ Olha! Parece um homem no rochedo.
      Gilliat não tirava os olhos do navio. A água chegava-lhe a cintura. Passou-se uma hora. Passou-se mais uma hora. O Cashmire era uma mancha...
      Foi diminuindo, diminuindo...
      No momento em que o navio se dissipava no horizonte a cabeça de Gilliat desaparecia debaixo da água. Tudo acabou. Só restava o mar. FIM (resumido por Mª de Lourdes Cardoso)


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

NON CREO EN HOROSCOPOS - TEORIA DO SISTEMA SOLAR ABALADA

Nos meus vinte anos lia Omar Cardoso (astrólogo), era uma coleção com alguns volumes. Parecia que ali nascia uma astróloga, pois Omar me dizia com todas as letras que eu era do signo de Escorpião, ou seja pessoa com grandes capacidades para enfrentamentos. Via no céu, como vejo até hoje, muitos enigmas. Ele ensinava a fazer horóscopo e não escondia os seus conhecimento sobre a abóboda celeste. Assim como Nicolau Copérnico olhava os astros a olho nu e fez importante descoberta, Omar sentenciava sobre a vida das pessoas. Copérnico criou a teoria heliocêntrica do Sistema Solar e cem anos depois Gallileu Galilei com sua lunetaa na  Itáliaprovou que Copérnico estava certo. O ano passado estive fazendo uma visita  a Universidade Federal do RS precisamente com um Professor de astronomia e dois alunos que juntamente com um casal  de amigos observamos as estrelas orientados pelos alunos e Professor. Fiz alguns questionamentos com relação a velocidade da Terra em viagem em torno do Sol. Questionei a luneta de Galileu e o local da observação. Posteriormente foi publicada uma matéria em jornal sobre o assunto. Estive também na PUC/RS  no museu onde pude ver o Sistema Solar em movimento e a estudante responsável pelo espaço não era de astronomia e brinquei com ela. "Está tudo sacramentado, não há mais dúvida com relação ao andamento do Sistema Solar?" E ela prontamente me disse: "não é a minha área". Disse, então: "não achas pouco tempo para a Terra dar a volta ao redor do Sol em 368 dias e ainda em rítmo de valsa? Não parece uma loucura?"
     Recebi um e-mail com um vídeo maravilhoso com a explicação que eu precisava sobre o cálculo dessa velocidade. O físico ou astrônomo, disse ser assustador essa velocidade.
     Voltando a falar em horóscopo, quando Professora em Porto Alegre conheci uma Engenheira que lecionava matemática e fazia mapa astrológico. Disse a ela "deixa isso para quem não entende de ciências exatas e  assim vai fazendo o mapa sem nenhum conhecimento". Explicou-me, então que o curso que ela tinha ajudava muito, fazia cálculos matemáticos e algo mais para chegar a conclusão de que a pessoa deveria ter algum tipo de destino. Fui firme na minha posição: "ora, ora Professora como pode os astros descidirem a vida das pessoas"? Agora esta semana a minha ex-colega de profissão deverá retificar os mapas que fez para as pessoas pensando em mim certamente. Um astrônomo norte-americano Parke Kunkle descobriu uma nova constelação no Zodíaco. O horóscopo não será mais dividido em 12, mas em 13 vezes para dar lugar a Serpente, ou melhor um Serpentário. Se eu já negava ser Escorpião, imagine Serpentária, Cobra. Os astrólogos irão dizer você é Cobra e a pessoa vai ficar muito feliz. Dona de um signo que resolve tudo. Astuciosa e espreitando sempre. Certeira. As inimigas irão dizer cuidado ela é de Cobra, ou seja é uma cobra, é uma víbora. Non creo en horoscopos. "Yo non creo en brujas, pero que las hay, las hay"  Miguel de Cervantes em dom Quixote de La Mancha. Confira, vale a pena.

A TERRA NÃO GIRA EM TORNO DO SOL DE AFM

Fiz um comentário sobre as descobertas de Galileu Galilei no site administrado pelo astrônomo e Prof. Avaní questionando a luneta de Galileu e também sobre o local em que ele observava os planetas, no caso a Itália.
Respondeu-me gentilmente o Professsor: "O que Galileu viu com uma lunetinha mixuruca daquela época foi coisa que só demonstra a erudição que ele tinha e que o local nada influencia nas descobertas. Hoje em dia mesmo com um telescópio 50 vezes melhor há quem não consegue olhar a Lua direito. Basta ver o meu blog, o pessoal pedindo ajuda." Avani
Agradece-me o comentário que fiz no blog e eu agradeço pela resposta enviada por e-mail. Este asssunto foi gerado quando editei a crônica com o título "NON CREO EN LOS HOROSCOPOS"
Para quem gosta de astronomia não deixe de acessar: http://astroavani.no.comunidades.net/index.php e receber explicações.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA - François Bégandeau

                        
      François nasceu em Luçon, na França. Iniciou a carreira profissional como professor, jogou futebol em Nantes, cantou e compôs letras e por fim escritor. Escreve o livro em 2006 e relata a hitória "do ponto de vista de um jovem e desajeitado professor de francês". Narra em primeira pessoa. É sua própria história. É verossímel. Verdade e ficção se misturam. O livro é um desabafo e também mostra a realidade de um colégio da periferia de Paris, onde ele deu aulas, vivenciou com diretores, professores e funcionários da escola. Esta narrativa é uma amostragem do que se passa nos colégios do mundo inteiro. Os alunos eram imigrantes oriundos de países que sofreram com guerras ou outros reveses. Eram africanos, paquistaneses, chineses e outros. Todos com dificuldades para entender a língua francesa. Faz um diário do conteúdo apresentado, relata aluno por aluno e sua maneira de dialogar com franqueza.

     Iniciou o ano letivo dando ordens:
    "__Que fique claro desde o início do ano: quero que, quando tocar o sinal, todos façam fila imediatamente. Cinco minutos para formar a fila, mais cinco minutos para subir, mais cinco minutos para se sentarem nos lugares, ao todo são quinze minutos de trabalhos perdidos. Tentem calcular um pouco o que isso representa, quinze minutos perdidos por aula durante todo o ano. À razão de vinte e cinco horas por semana e trinta e três semanas, dá mais de três mil minutos perdidos. Há colégios que trabalha uma hora sobre uma hora. Vocês partem com três mil minutos de atraso sobre eles. E depois a gente se espanta". Faço uma observação com o emprego de "a gente". Acredito que nos originais em francês ele escreveu: "E depois nos espantamos".
A aluna de nome Khoumba reclama dos períodos que não tinham uma hora, mas cinquenta ou cinquenta e cinco minutos.
     "__ Bom, bom, vamos corrigir: então uma frase com depois que (aprés que)..."
     "__ Ontem eu disse que após o depois que (aprés que), usa-se o indicativo."
    À medida que davam as resposta o professor aumentava a dificuldade e corrigia: "não use o passado simples (passé simple)...use o passado composto (passé composé)...é preciso usar o passado composto na frase inteira...ser e ter (auxiliares) não é a mesma coisa"
     "__Mas prô, não é obrigatório, a ação já está acabada quando a gente usa o depois que".
    Percebeu a dificuldade e continuou a explicar cada vez acrescentando algo novo como o subjuntivo, um tempo esquisito como o futur entérieur (futuro anterior) e inicia um novo dia narrando que ele não dormia, mas "eles dormiam". Sandra entrou, sem bater e as paredes balançaram.
O professor filosofa: "De um lado temos a existência. E o que é a existência. Em resumo é isso to be or not to be..."
      "__Prô, o senhor prefere ser ou não ser?
      __ Eis a questão.
      __ Eu prefiro ser".
     Dos vinte e quatro alunos apenas duas entenderam a expressão sentido de existência, que foi tema de casa.
     Na reunião da escola: "Eu proponho um projeto sobre as incivilidades. Eles não param de se insultar uns aos outros, seria necessário punir sistematicamente". O professor Guilles dá a sua opinião: "Lamento, mas estamos pagando as besteiras do ano passado. No ano passado, nas quintas, eles já aprontavam, teria sido suficiente dois ou três conselhos disciplinares para acalmá-los... eles nos desafiam o tempo todo.
     Retomando o diário de aula.
     "__ Prô isso não se faz, o senhor está "fulo" e desconta em mim, isso não se faz.
     __ Em primeiro lugar não se diz "fulo", diz-se o quê?
     __ Diz-se o que o quê?
     __ Use uma palavra verdadeiramente ideal da nossa língua, isso já melhora.
     __ O senhor está com raiva..."
     Aqui, o professor reforça o ensino da linguagem culta e nunca a linguagem popular.
     O professor pede Khoumba para ler um texto e ela não estava a fim.
    "__ A fim ou não você vai ler.
    __ O senhor não pode me forçar a ler".
    Na saída o professor escreve um bilhete aos pais da aluna explicando os termos da punição.
    "__ Peça desculpas.
    __ Desculpas de quê? Eu não fiz nada.
    __ Peça desculpas. Enquanto você não pedir, não vou liberá-la".
    Depois de resistência de ambos, de chamá-la de insolente, ela decide pedir desculpas.
    "__ Senhor, peço-lhe desculpas por ter sido insolente com o senhor".
    O professor lhe entrega o caderno e ela desce a escada, exclamando:
      "__ Não acho".
     Khoumba não se achava insolente e mais uma vez ofendeu o professor. Este volta para a sala e chuta uma cadeira que virou em trmbolhão. Reflete e levanta alguns pontos relacionados com os problemas da escola, da sociedade, o futuro, a igualdade, o trabalho e não se cansa de enumerar considerações e entre todas salientei uma: "Como os pais e parceiros externos da escola podem favorecer a sucesso escolar dos alunos?"
  Khoumba escreve. Resumindo: "Em todo caso, eu me comprometo respeitá-lo se for RECÍPROCO. De qualquer maneira eu também não olharei para o senhor, para que o senhor não diga que eu estou olhando com insolência. E, normalmente, numa aula de francês, deve-se falar do francês e não de sua avó ou irmão, por isso, a partir de agora, eu não falarei mais com o senhor."
De relato em relato ela narra o episódio das meninas que disseram a ela que todo o colégio estava sabendo:
   "__ Sabendo de quê? Pergunta o professor.
   __ Que o senhor nos insultou de vagabundas".
   De dentes cerrados:
  "__ Eu não as tratei de vagabundas, eu disse que em dado momento    vocês se comportaram como vagabundas, se você não compreende isso, a diferença, você está completamente por fora, coitada!"
   A discussão foi longa.
   "__ Prô, eu tenho uma pergunta, mas se eu fizer, o senhor vai me mandar para Guantânamo.
    __ Ah?"
    Este "ah" do professor sugere que isso seria uma boa idéia.
    Novos fuxicos vem a tona em aula:
     "__Eles dizem o quê? Insiste o professor para que a aluna fale.
     __ Hum, eles dizem que o senhor gosta de homens".
     Aproxima-se o final do ano e uma aluna chora e diz ao professor que estava perdida. Que não entendia nada.
Como professora que fui entendo perfeitamente a situação. Alunos com quinze anos que não saiam da quinta série e precisavam trabalhar, por ser muito pobres, como ajudantes em bancos e escritórios fazendo trabalhos de rua e precisavam de atestados que haviam terminado a quinta série.
     O professor faz provas simuladas e explica que fazê-la repetir a oitava série seria contraproducente. Iria colocá-la no Ensino Médio que se dividia em ensino geral, técnico ou profissionalizante. Esta maneira de pensar do professor foi correta, chega um momento que não há outra alternativa para o professor. Dá um incentivo ao aluno e sugere por exemplo o ensino profissionalizante. Com o correr do tempo poderá desaparecer as dificuldades e seguir uma outra carreira e nos países pobres a tendência é mesmo o abandono dos estudos em troca de trabalho.
     Entre as palavras escritas em francês, Ming um chinês escreve entre muitas a palavra austríaca. O professor explica o significado de todas as palavras e virando-se para Ming, disse-lhe: "que austríaca era de fato bastante conhecida, mas que, bem, na verdade era um país pequeno, que ninguém se importava muito com os austríacos. Mesmo assim, você conhece o país chamado Áustria, Ming?
   __Não".
   O professor diz a Ming que não precisa esquentar a cabeça porque é um país sem nenhama importância para o mundo, para a Europa. Pergunta para a turma:
    "__ Alguém aqui conhece um austríaco célebre".
    Nenhuma aluna levantou a mão. Novamente o professor falou aos alunos que se uma bomba tirasse a Áustria do mapa, ninguém perceberia.
     Neste diálogo com os alunos o professor perde a aportunidade de falar sobre a Áustria ou não havia dormido ou não sabia nada sobre ela. Poderia ter falado de Sigmundo Freud, pai da psicanálise que nasceu e estudou na Áustria, de Strauss que também nasceu lá e compôs valsas que são tocadas sobretudo na França e a mais conhecida delas "O Danúbio azul", nome tirado do principal rio que corta o país. Mozart também austríaco com as famosas "Sinfonias" e a dominação da Áustria por um perído de quase 300 anos no centro da Europa e reação da Áustria contra Napoleão Bonaparte quando do Primeiro Império Francês criado por ele. 
O professor encerra o ano reforçando a liguagem culta: nunca diga a gente no lugar de nós. "Bem, escreve o autor, vou voltar a oralidade, lembro que não é porque a questão pede para vocês escrever um diálogo que precisam escrever como falam, entenderam? Aliás, ninguém consegue escrever como fala, é impossível, o máximo que se consegue fazer é dar uma impressão de oralidade, só isso..."
    Uma bela obra, franca e em nenhum momento ele ficou preocupado em relatar a verdade, a inexperiência como professor.
Nas minhas turmas sempre havia surpresas e embaraços de turma para turma com situações diferentes e com grande dificuldade para resolver os problemas. Mocinha de dezesseis anos com acesssos de risos permanente (drogada) na turma da noite. Adolescentes que faziam da escola ponto de encontros para simplismente perturbar. Adotei um sistema de fichas. Todos deveriam copiar a matéria de português no caderno pegando as fichas sobre a mesa e recebiam explicações individuais. Estes que só queriam bagunçar afastaram-se porque perderam o interesse. Não havia mais nada escrito no quadro e não havia mais provas. Foi a solução para se ter paz. A política do governo é sempre a de prender o aluno e nunca afastá-lo. Só que esses que perturbam se veem livres para fazer o que querem e a escola não tem mecanismos para conter a indisciplina...
    O autor ficou em sala de aula por sete anos eu fiquei por onze insupostáveis anos, com exceção de alguns com crianças de oito, uma oitava série do curso supletivo em colégio particular. Leitura para pais e professores numa época que estamos discutindo gramática portuguesa com erros, adotada pelo Ministério da Educação.