sábado, 13 de setembro de 2014

A DESOBEDIÊNCIA CIVIL - Henry David Thoreau

     Em 1845, Thoreau, pensador norte-americano, aos 38 anos depois de escrever: An Excursion to Canadá, Excursions, The Maine Woods, a Natural History of Massachusetts e sir Walter Raleigh, sai do povoado de Conrad no estado de Massachusetts e vai morar às margens do lago Walden por dois anos e meio.
     Retira-se do convívio social pelo tempo que lhe foi necessário: "Deixei a mata por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez me parecesse que eu tenha várias outras vidas para viver e não podia dedicar mais tempo àquela." (Walden, 140)
     Quando ainda morando em Walden em 1846, assim narra em seu livro: "Numa tarde, terminando o primeiro verão, quando fui ao povoado para pegar um sapato no conserto, fui detido e preso, como contei em outro lugar, não paguei um imposto, ou seja, não reconheci a autoridade do Estado que compra homens, mulheres e crianças como gado às portas de seu Senado. " (Walden, p. 167)
     Escreve um ensaio "A desobediência civil" em 1848, contra a cobrança de imposto em protesto a Guerra contra o México e contra a escravidão. "Às vezes eu me admiro como podemos ser tão dignos, frívolos em nos ocupar com a forma de cativeiro - grave, é certo, mas um tanto estrangeira - chamado Escravidão Negra, enquanto existem tantos senhores sutis e ardilosos que escravizam o Norte e o Sul." (Walden, p. 21)
     Inicia protestando enfaticamente: "O melhor governo é o que governa menos." Aqui faz, talvez uma denúncia ou eclarecimento sobre a direção que tomava os governantes do país de Norte a Sul. Esta seria a primeira máxima que vem de encontro com uma outra: "O melhor governo é o que absolutamente não governa." Naquela situação seria bem melhor para uma nação perdida nas mãos sórdidas de seus governantes que eles deixassem o país livre, nas mãos da sociedade. A incompetência dos escolhidos e daqueles que se apresentam como representantes do governo, apenas desgovernam de maneira brutal. Chama de governo "inconveniente", e incoveniente são realmente seus representantes que unidos praticam atos imorais contra o povo igualmente propensos a "abusos e desvios." Abusos e desvios palavras na boca do povo de muitas nações por séculos à fora, haja vista o que acontece nos dias atuais aqui no Brasil, onde uma nação suporta os mais altos impostos do mundo e o dinheiro arrecadado tem um fim que o povo desconhece, apesar de se falar por aqui em transparência. A corrupção em nosso país está também na boca do povo  e está presente de Norte a Sul e de Leste a Oeste. Escreve que "não havia sido consultado que tal medida fosse tomada", aqui refere-se a prisão , pois o povo norte-americano era tomado de surpresa com as decisões vindas do poder, das leis instituídas pela nação. "Eu não peço a extinção do governo de imediato, mas sim imediatamente, um governo melhor. Deixem que cada homem expresse o tipo de governo digno de seu respeito, e este já será um passo para que ele vigore."
     O regime republicano protegido por leis nos leva a suportar os desmandos, ficamos atrelados  a um infindável número de parlamentares e senadores que nada sabem, nada veem a não ser os polpudos salários de cada mês.
     Disse muito bem o brasileiro Medeiros e Albuquerque: "Quando se acusa um partido reacionário de ser nefasto a qualquer país, em cuja direção ele está há muito tempo, a resposta que sempre aparece é a de comparação da situação do país, no momento que o partido assume o poder e no momento em que é feita a acusação." (Internet, Portal San Francisco, Presidencialismo e Parlamentarismo no Brasil). O ilustre brasileiro está se referindo a vontade inexistente de conduzir uma nação por partidos em qualquer país. O mesmo regime político que está dando certo em um país, não está em outro. O que falta a uma nação de homens de boa vontade, voltados para o progresso, pela igualdade entre os homens, salários igualitários e educação igualmente igualitária é a chamada vontade política.  
     Na guerra segundo Thoreau, os soldados são comparados talvez ou toda a engrenagem governamental "como máquina", entregando seus corpos." Assim prosseguem em guerras ora com vitnamitas, ora com países da Ásia Menor. Seus heróis são infindáveis soldados mutilados em cadeiras de rodas entre os enviados de cá e os combatentes de lá.  Exibem seus troféus e o povo assiste, como assite a um filme, que assim que termina a fita o seu herói não é mais lembrado. Assim escreve Gilberto Amado: "Perdido no volume das massas, apagado no corpo das coletividades, mesquinho, obscuro na grandeza e no brilho dos batalhões, insignificante no renome da pátria - ninguém se lembra dele, do pobre ser humano, ninguém se lembra dos indivíduos esmagados no choque dos batalhões aos milhares, como protozoários sob uma árvore que tomba ou destruídos na fúria de um ciclone." (Grão de Areia, p. 57)
     Em "A desobediência civil", refere-se aos impostos tributados nas "mercadorias estrangeiras trazidas a seus portos," produtos indispensáveis a ele e que sem dúvida o povo se torna escravo daquilo que não precisa, mas que como animais ao pasto, caminha em sua direção. Esta máquina que estrangula afirma que "devemos repudiá-la."
     Aqui no Brasil, devemos repudiar a onda de produtos contrabandiados que já são visto de maneira corriqueira, institucionalizada, fruto dos altos imposto taxados pelo governo para todo brasileiro que quizer investir em produção. A armazenagem compulsiva dos contrabandeados toma conta dos lares com os produtos sem finalidades com um destino cruel, a intoxicação do planeta.
     O foco narrativo de Thoreau, sobre a escravidão, que assolava o país, homens oriundos da África, eram negociados à porta do Senado e diz que a "massa dos homens é despreocupada" e aponta para a existência de "uma bondade absoluta em algum lugar, pois isso fermentará toda a massa informe." Diz que "em opinião as pessoas se opõem a escravidão e à guerra, mas nada fazem de fato para acabar com as duas; que, considerando-se filhos de Washington e Franklin, se sentam com as mãos nos bolsos dizem que nada sabem o que fazer  (...)
     Os filhos dos dois presidentes  que nada fazem vem de encontro ao despreparo. A preocupação política com o preparo de seu povo é insignificante e o acesso uma formação integral do cidadão fica restrito à poucos. Assim assistem aos desmandos sentados, mas contrariados, sem ação. A preocupação dos "mais preparados" é sem dúvida desenvolver o seu comércio ou tornar-se um proprietário de terras para o plantio, sem limites, destruíndo o que está pela frente.
     Aqui também temos os filhos de Vargas e de Kubitschek. O primeiro ficou no poder por 15 anos e chama de "arrumar a casa" ou seja, cria possibilidades de uma sustentação econômica através da agricultura alimentar e na indústria. Preocupa-se com as fronteiras e cria a "Marcha para o Oeste", com colônias agrícolas em terras do governo e até expulsa fazendeiros assentados nestas terras. Assim surge os minifúndios e ao mesmo tempo surge os coronéis em terras estratégicas que empurram os minifundiários com falsificação de documentos na chamada "grilagem de terra" ou também conhecido por "caxixe". Vendem a madeira e fazem a lavagem de dinheiro. Surge assim o nosso capitalismo com o lucro dos coronéis cercados de empregados mal pagos nas fazendas e o lucro  das indústrias de grande porte.
     Kubitschek, lança a campanha de fazer em cinco anos o que não foi feito em cinquênta. Rompe com o capitalismo e faz circular a entrada de capital estrangeiro, que por sua vez socorre a burguesia nacional e também para tirar o país da estagnação. Muda a capital para o centro do país com uma umidade do ar abaixo da média e abre um grande lago, o Paranoá, para melhorar a qualidade do ar, além das despesas com a construção da Novacap. Deixa uma dívida externa de mais de 3 bilhões de dólares batendo no coração de Brasília para o povo pagar através de impostos.
     A procura de uma bondade para Thoreau que fermente é a solução para o grande pensador. Lá encontramos americanos que com sua bondade deixaram registrados para sempre a sua marca, e nos dias de hoje podemos citar um herói de guerra, herói mutilado não pela guerra, mas pela prisão da justiça americana, por denunciar os horrores da guerra que participava. Bradley Manning está preso na base naval de Quântico, estva sendo mantido nu, acordado e sem comunicação, o que a CIA chama de "tortura sem contato"  (no-touch torture). O julgamento do passado e o julgamento nos dias de hoje ainda dizem respeito ao crescimento da nação, sob a égide da premissa custe o que custar e o julgamento do judiciário vem de encontro a política norte-americana e não na defresa do indivíduo. E isto, sem dúvida é um desastre quando o judiciário é submisso ao governo e não ao seu ideário.
     Às margens do lago Walden pode-se ouvir o eco da palavra pregada por Thoreau, museo a céu aberto, sem paredes e portas, livre como ele gostava de ser, refúgio para seus visitantes que aos milhares se emocinam ao pisar nas  palmilhadas terras e semeadas por ele, na humilde cabana habitada e na  inteligência ignorada pelos governantes que só viam a maldade, a escravidão e na obrigação com o imposto. Esta semente única, hoje é semeada  nas universidades, como era seu desejo, que apenas uma bondade surgisse, que o fermento crescesse e de certa forma atingisse um dia toda a humanidade com aquela compreensão necessária para se atingir um ideal de felicidade através da escolaridade, da cultura e no desencruzar dos braços. Diz Gilberto Amado: "Culto era Sócrates, preferindo beber cicuta a revogar, com qualquer habilidade ou modificações de linguagem, os compromissos tomados consigo mesmo. A cultura, a sabedoria o havia acostumado a viver uma vida bela e lhe ensinara a compreender o valor de uma bela morte. A cultura  lhe havia feito sentir que o sabor da vida  com a beleza perdida na renúncia pela  covardia seria amargo." (Estudos Brasileiros, p. 228). Minguém precisa beber cicuta. Thoreau era pacífico, inspirou Gandhi a libertar a Índia das garras da Inglaterra de maneira ordeira. Tólstoy escreve mais tarde, faz denúncias sobre os desmandos na Rússia em todos os aspectos, mas não insita a guerra. Com coragem e humildade, como fez anteriormente Thoreu, se mistura aos pobres, aos trabalhadores explorados e denuncia a tirania russa.
     A palavra de Thoreau: "Que se infrinja a lei" é a palavra do pensador quando a máquina governamental está sendo injusta e não evita o mal e assim a vida do ser humano que pode chegar ao fim antes que as regras do governo "produzam efeito." Quantas vidas são ceifadas no Brasil pelo péssimo atendimento à saúde de seus cidadãos? Quantas vidas são perdidas todos os dias com a violência urbana travada pela droga? Quantas crianças que deixam de estudar e encontram o caminho do crime? Estas crianças recebem seu primeiro diploma na cadeia assim que atinge a maioridade, diploma recebido  pela Escola do Crime.
     A atitude de Thoreau perante seu  protesto e a noite passada na prisão pelo não cumprimento da lei de cobrança de imposto assim se expressa: "Pois não importa o quão significante o começo possa parecer e o que é bem feito uma vez está feito para sempre (...)" e prossegue: "Se mil homens não pagassem imposto este ano, tal medida não seria tão violenta ou sangrenta quanto os pagar (...)" O conflito entre justiça e riqueza foi descrito onze anos antes de Karl Marx. "Em termos absolutos, quanto mais dinheiro, menos virtude, pois o dinheiro coloca-se entre um homem e seus objetos, e consegue-os por ele; e certamente não houve grande virtude em obter dinheiro (...) A melhor coisa que um homem pode fazer por sua cultura quando é rico é empenhar-se para por em prática os projetos que nutria quando era pobre (...)." Em Walden ele dedica o primeiro capítulo a Economia: "De um lado fica o palácio, do outro o asilo de mendigos e os pobres silenciosos. Os milhares que construíram as pirâmides para ser as tumbas dos Faraós recebiam alho para comer e talvez nem tenham recebido um enterro decente (...)" (p. 45)
     Marx,  refere-se ao trabalho de extração de minérios entre tantos, como sendo penoso, demorado e o diamante deveria ter seu preço não pelo valor da pedra em si, mas pelo trabalho em extrai-lo. Na hora da venda ele deveria ser bem pago pelo seu trabalho e em consequência a pedra valeria muito, assim a justiça seria feita e não haveria o distanciamento entre o rico e o pobre (escravo).
     A igreja anglicana era conhecida como religião vinculada  ao Estado, tanto que o hino nacional norte-americano foi por um certo tempo um canto religioso chamado Glória, glória aleluia (Vencendo vem Jesus), uma marcha de Battle Hymm. Destaco uns versos do hino:
        "Breve os reinos deste mundo.
         Seguirão as suas leis!
         Multidões já conquistou (o Cristo).
         Seu furor patenteou." 
     Aqui vê-se um Cristo impondo "as suas leis" que sem dúvida  os reinos (países) seguirão às suas leis. Seguir as leis está sendo motivo de guerra ditas cristãs. Quanto ao Cristo conquistar as multidões está dando um mau exemplo porque as multidões não se conquistam, não devemos sobrepor aos demais, esta multidão mais parece inimiga no combate, e patenteia o seu furor, fica registrado o seu furor àqueles que não respeitam a ideologia religiosa do outro. Um Cristo furioso, sem dúvida, que não leva a nada. Hino cantado nas igrejas norte-americana com fervor até os dias atuais.
     Thoreau protocolou na Prefeitura o desvinculamento da Igreja, deixou provas de que não era mais membro daquela instituição.
     Na prisão - "uma experiência inédita e rara para mim: aquela foi uma visão mais próxima da minha cidade natal. E eu estava justamente dentro dela. Nunca antes tinha visto suas instituições (...) Comecei a compreender como seus habitantes viviam (...)
     Dependendo de quem analiza a Constituição é muito boa (...), mas observando a partir de um ponto de vista um pouco mais elevado, eles são como os descrevi (...)
    Queria um Estado que fosse justo com todos os homens, que trate com respeito seus semelhantes, mas que ainda não encontrou em lugar algum.
     Concluo falando da humildade do pensador, que em momento algum desejou qualquer projeção. "Quando fui solto, na manhã seguinte, dei continuação minha pequena incumbência, após calçar os meus sapatos consertados, me reuni a um grupo que ia colher flores silvestres e desejava-me como guia: e em meia hora - pois logo recebi um cavalo arreado - estava no centro de um campo de mitrilos, em uma de nossas colinas mais altas três quilômetros de distância, e então já não conseguia ver o Estado em parte alguma." Pensando desta forma: "Não me nego a pagar o imposto por algum item em particular. Desejo simplesmente a negar a me submeter ao Estado, me afastar e manter-me à parte dele" e da colina repito "não conseguia ver o Estado em parte alguma.", mas apenas um desabafo feito na época em que morava em Walden, porque depois ele se volta ao Estado novamente e bate forte na Constituição norte-americana e no Judiciário.



    

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