sábado, 7 de janeiro de 2012

EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO - José Saramago

         O escitor publica o livro em 1991 pela Editora Companhia das Letras. A narrativa é uma irreverência a linguística portuguesa. Ofende a própria língua, ofende a pátria, angaria seguidores que sob título de um olhar moderno, desfacela a linguagem. Não respeita período, pontuação e o emprego da letra minúscula/maiúscula. Deixa a linguagem cansativa, extensa numa época em que tudo anda depressa e a línguagem está mais breve. Reinventa o falar português dizendo que eles irrompem ao falar ou não fazem pontuação. Discurso indireto, porém sem nenhuma critério, como nesse período: "Como está Jesus, perguntou o pai consciente da expressão um tanto ridícula duma pergunta formulada assim, mas incapaz de resistir ao orgulho de ter um filho e poder dar-lhe um nome. O menino está bem respondeu Maria..." (p. 71).
      Passa o resto de seus anos dando explicação sobre a nova maneira de escrever. Destrona professores sem nenhum respeito e ganha notoriedade. Prêmio Nobel de Literatura. Em dado momento da narrativa ele pede ao leitor que o escute: "Mil vezes a experiência tem demonstrado, mesmo em pessoas não particularmente dada à reflexão, que a melhor maneira de chegar a uma boa idéia é ir deixando discorrer o pensamento ao sabor dos seus próprios acasos e inclinações..." ( p. 71).  O narrador deixa escapar o seu próprio comportamento e inclinações motivo de crítica ou aplausos.
       Informa o leitor, no próprio livro, dizendo ser uma ficção, um romance. Busca na Bíblia as personagens e dá-lhes um outro caminho, a seu modo.
       Tanto escreve no singular ou plural a pessoa do verbo, modo  Indicativo e Subjuntivo, em tempo presente, pretério, futuro, gerúndio ou o verbo no infinitivo...
       "O sol mostra-se num dos cantos superiores do retângulo..." (3ª p. do singular,  p. 7).
       "A noite ainda tem muito para durar" (Infinitivo).
       "...lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir..." (2ª p. do plural).
        Aproveitando a frase acima o narrador ultrapassa e chega a ironizar, dizendo que não poderemos ouvir  "...pois nenhuma dessas coisas, o que temos diante de nós é papel e tinta, nada mais". Acrescento que foi um desperdício de papel e tinta e no lugar de "nada mais" eu acrescento e "muito mais" com períodos longos, narrou por dinheiro, cansou-se e deixou o leitor cansado.
         Momentos de rara beleza se pode destacar: "...com todo este ir e vir, este andar e estar parado, este pedir e perguntar, foi desmaiando o forte azul do céu"  (p. 63). Transforma o adjetivo "forte azul" em substantivo numa construção inteligente.  Ainda: "...com a sua cor de pedra tostada que era como a cor do pão..." (p. 85). Está se referindo a cidade construída em degraus.
         Romance psicológico, mostra subjetividade, fragilidade: "De súbito, José sentiu-se inquieto, ele que tão feliz estava um momento antes" (p. 84).
          Surreal quando José se vê a frente da cuel realidade: "Na lembrança de José, aos poucos, sonho terrível torna-se irreal, absurdo" (p. 97).  Aqui o sonho representa o temor, e por isso é irreal, mas não menos tormentoso.
         A ambigüidade se faz presente como: "a verdade e a mentira"; "expressão dos seus olhos e falta de expressão" e por último "anjos como Deus ou um anjo do Senhor e demônios em figura de pastor".  A estilística fica prejudicada com narrativa desplicente, recurso usado pela maioria dos escritores.
       O narrador nao aparece, o sujeito fica oculto: "...os filhos são a alegria dos pais, diz-se, e Maria fazia tudo para parecer contente..." (p. 106).
       Brinca com Deus e mostra um Deus despreocupado: "O remorso de Deus e o remorso de José eram um só remorso, e se naqueles antigos tempos já se dizia, Deus não dorme, hoje estaremos em condições de saber porquê, Não dorme porque cometeu uma falta  que nem o homem é perdoável" (p. 107).
       Aborda o pecado de Eva no Paraíso: "Aumentarei  os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos nascerão entre dores, e hoje, passados já tantos séculos, com tanta dor acumulada, Deus ainda não se dá por satisfeito e agonia continua" (p. 64).
      Aproveita a mitologia bíblica: "Tu és o meu filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência" e volta a ficção: "Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifíco"  (p. 374).
      Assim como inicia o livro ele termina com a crucificação: "Então Jesus morre, morre, e já vai deixar a vida..." (p. 374).
      Confira você e tire suas próprias conclusões.

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