segunda-feira, 1 de agosto de 2011

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA - François Bégandeau

                        
      François nasceu em Luçon, na França. Iniciou a carreira profissional como professor, jogou futebol em Nantes, cantou e compôs letras e por fim escritor. Escreve o livro em 2006 e relata a hitória "do ponto de vista de um jovem e desajeitado professor de francês". Narra em primeira pessoa. É sua própria história. É verossímel. Verdade e ficção se misturam. O livro é um desabafo e também mostra a realidade de um colégio da periferia de Paris, onde ele deu aulas, vivenciou com diretores, professores e funcionários da escola. Esta narrativa é uma amostragem do que se passa nos colégios do mundo inteiro. Os alunos eram imigrantes oriundos de países que sofreram com guerras ou outros reveses. Eram africanos, paquistaneses, chineses e outros. Todos com dificuldades para entender a língua francesa. Faz um diário do conteúdo apresentado, relata aluno por aluno e sua maneira de dialogar com franqueza.

     Iniciou o ano letivo dando ordens:
    "__Que fique claro desde o início do ano: quero que, quando tocar o sinal, todos façam fila imediatamente. Cinco minutos para formar a fila, mais cinco minutos para subir, mais cinco minutos para se sentarem nos lugares, ao todo são quinze minutos de trabalhos perdidos. Tentem calcular um pouco o que isso representa, quinze minutos perdidos por aula durante todo o ano. À razão de vinte e cinco horas por semana e trinta e três semanas, dá mais de três mil minutos perdidos. Há colégios que trabalha uma hora sobre uma hora. Vocês partem com três mil minutos de atraso sobre eles. E depois a gente se espanta". Faço uma observação com o emprego de "a gente". Acredito que nos originais em francês ele escreveu: "E depois nos espantamos".
A aluna de nome Khoumba reclama dos períodos que não tinham uma hora, mas cinquenta ou cinquenta e cinco minutos.
     "__ Bom, bom, vamos corrigir: então uma frase com depois que (aprés que)..."
     "__ Ontem eu disse que após o depois que (aprés que), usa-se o indicativo."
    À medida que davam as resposta o professor aumentava a dificuldade e corrigia: "não use o passado simples (passé simple)...use o passado composto (passé composé)...é preciso usar o passado composto na frase inteira...ser e ter (auxiliares) não é a mesma coisa"
     "__Mas prô, não é obrigatório, a ação já está acabada quando a gente usa o depois que".
    Percebeu a dificuldade e continuou a explicar cada vez acrescentando algo novo como o subjuntivo, um tempo esquisito como o futur entérieur (futuro anterior) e inicia um novo dia narrando que ele não dormia, mas "eles dormiam". Sandra entrou, sem bater e as paredes balançaram.
O professor filosofa: "De um lado temos a existência. E o que é a existência. Em resumo é isso to be or not to be..."
      "__Prô, o senhor prefere ser ou não ser?
      __ Eis a questão.
      __ Eu prefiro ser".
     Dos vinte e quatro alunos apenas duas entenderam a expressão sentido de existência, que foi tema de casa.
     Na reunião da escola: "Eu proponho um projeto sobre as incivilidades. Eles não param de se insultar uns aos outros, seria necessário punir sistematicamente". O professor Guilles dá a sua opinião: "Lamento, mas estamos pagando as besteiras do ano passado. No ano passado, nas quintas, eles já aprontavam, teria sido suficiente dois ou três conselhos disciplinares para acalmá-los... eles nos desafiam o tempo todo.
     Retomando o diário de aula.
     "__ Prô isso não se faz, o senhor está "fulo" e desconta em mim, isso não se faz.
     __ Em primeiro lugar não se diz "fulo", diz-se o quê?
     __ Diz-se o que o quê?
     __ Use uma palavra verdadeiramente ideal da nossa língua, isso já melhora.
     __ O senhor está com raiva..."
     Aqui, o professor reforça o ensino da linguagem culta e nunca a linguagem popular.
     O professor pede Khoumba para ler um texto e ela não estava a fim.
    "__ A fim ou não você vai ler.
    __ O senhor não pode me forçar a ler".
    Na saída o professor escreve um bilhete aos pais da aluna explicando os termos da punição.
    "__ Peça desculpas.
    __ Desculpas de quê? Eu não fiz nada.
    __ Peça desculpas. Enquanto você não pedir, não vou liberá-la".
    Depois de resistência de ambos, de chamá-la de insolente, ela decide pedir desculpas.
    "__ Senhor, peço-lhe desculpas por ter sido insolente com o senhor".
    O professor lhe entrega o caderno e ela desce a escada, exclamando:
      "__ Não acho".
     Khoumba não se achava insolente e mais uma vez ofendeu o professor. Este volta para a sala e chuta uma cadeira que virou em trmbolhão. Reflete e levanta alguns pontos relacionados com os problemas da escola, da sociedade, o futuro, a igualdade, o trabalho e não se cansa de enumerar considerações e entre todas salientei uma: "Como os pais e parceiros externos da escola podem favorecer a sucesso escolar dos alunos?"
  Khoumba escreve. Resumindo: "Em todo caso, eu me comprometo respeitá-lo se for RECÍPROCO. De qualquer maneira eu também não olharei para o senhor, para que o senhor não diga que eu estou olhando com insolência. E, normalmente, numa aula de francês, deve-se falar do francês e não de sua avó ou irmão, por isso, a partir de agora, eu não falarei mais com o senhor."
De relato em relato ela narra o episódio das meninas que disseram a ela que todo o colégio estava sabendo:
   "__ Sabendo de quê? Pergunta o professor.
   __ Que o senhor nos insultou de vagabundas".
   De dentes cerrados:
  "__ Eu não as tratei de vagabundas, eu disse que em dado momento    vocês se comportaram como vagabundas, se você não compreende isso, a diferença, você está completamente por fora, coitada!"
   A discussão foi longa.
   "__ Prô, eu tenho uma pergunta, mas se eu fizer, o senhor vai me mandar para Guantânamo.
    __ Ah?"
    Este "ah" do professor sugere que isso seria uma boa idéia.
    Novos fuxicos vem a tona em aula:
     "__Eles dizem o quê? Insiste o professor para que a aluna fale.
     __ Hum, eles dizem que o senhor gosta de homens".
     Aproxima-se o final do ano e uma aluna chora e diz ao professor que estava perdida. Que não entendia nada.
Como professora que fui entendo perfeitamente a situação. Alunos com quinze anos que não saiam da quinta série e precisavam trabalhar, por ser muito pobres, como ajudantes em bancos e escritórios fazendo trabalhos de rua e precisavam de atestados que haviam terminado a quinta série.
     O professor faz provas simuladas e explica que fazê-la repetir a oitava série seria contraproducente. Iria colocá-la no Ensino Médio que se dividia em ensino geral, técnico ou profissionalizante. Esta maneira de pensar do professor foi correta, chega um momento que não há outra alternativa para o professor. Dá um incentivo ao aluno e sugere por exemplo o ensino profissionalizante. Com o correr do tempo poderá desaparecer as dificuldades e seguir uma outra carreira e nos países pobres a tendência é mesmo o abandono dos estudos em troca de trabalho.
     Entre as palavras escritas em francês, Ming um chinês escreve entre muitas a palavra austríaca. O professor explica o significado de todas as palavras e virando-se para Ming, disse-lhe: "que austríaca era de fato bastante conhecida, mas que, bem, na verdade era um país pequeno, que ninguém se importava muito com os austríacos. Mesmo assim, você conhece o país chamado Áustria, Ming?
   __Não".
   O professor diz a Ming que não precisa esquentar a cabeça porque é um país sem nenhama importância para o mundo, para a Europa. Pergunta para a turma:
    "__ Alguém aqui conhece um austríaco célebre".
    Nenhuma aluna levantou a mão. Novamente o professor falou aos alunos que se uma bomba tirasse a Áustria do mapa, ninguém perceberia.
     Neste diálogo com os alunos o professor perde a aportunidade de falar sobre a Áustria ou não havia dormido ou não sabia nada sobre ela. Poderia ter falado de Sigmundo Freud, pai da psicanálise que nasceu e estudou na Áustria, de Strauss que também nasceu lá e compôs valsas que são tocadas sobretudo na França e a mais conhecida delas "O Danúbio azul", nome tirado do principal rio que corta o país. Mozart também austríaco com as famosas "Sinfonias" e a dominação da Áustria por um perído de quase 300 anos no centro da Europa e reação da Áustria contra Napoleão Bonaparte quando do Primeiro Império Francês criado por ele. 
O professor encerra o ano reforçando a liguagem culta: nunca diga a gente no lugar de nós. "Bem, escreve o autor, vou voltar a oralidade, lembro que não é porque a questão pede para vocês escrever um diálogo que precisam escrever como falam, entenderam? Aliás, ninguém consegue escrever como fala, é impossível, o máximo que se consegue fazer é dar uma impressão de oralidade, só isso..."
    Uma bela obra, franca e em nenhum momento ele ficou preocupado em relatar a verdade, a inexperiência como professor.
Nas minhas turmas sempre havia surpresas e embaraços de turma para turma com situações diferentes e com grande dificuldade para resolver os problemas. Mocinha de dezesseis anos com acesssos de risos permanente (drogada) na turma da noite. Adolescentes que faziam da escola ponto de encontros para simplismente perturbar. Adotei um sistema de fichas. Todos deveriam copiar a matéria de português no caderno pegando as fichas sobre a mesa e recebiam explicações individuais. Estes que só queriam bagunçar afastaram-se porque perderam o interesse. Não havia mais nada escrito no quadro e não havia mais provas. Foi a solução para se ter paz. A política do governo é sempre a de prender o aluno e nunca afastá-lo. Só que esses que perturbam se veem livres para fazer o que querem e a escola não tem mecanismos para conter a indisciplina...
    O autor ficou em sala de aula por sete anos eu fiquei por onze insupostáveis anos, com exceção de alguns com crianças de oito, uma oitava série do curso supletivo em colégio particular. Leitura para pais e professores numa época que estamos discutindo gramática portuguesa com erros, adotada pelo Ministério da Educação.



























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