segunda-feira, 29 de agosto de 2011

TRABALHADORES DO MAR - Victor Hugo

          A narativa se prende as lutas do homem, como religião, sociedade e a natureza.    Estas três lutas vem das três necessidades: crer, criar e viver.
        Tudo se passa na ilha de Guernesey (no arquipélago do canal da Mancha).
        Gilliat e Déruchette, os dois personagens criados para a partir daí travar a luta ora sob a superstição, ora sob o preconceito.
        As artes do diabo assustavam os pescadores do mar que se ajoelhavam diante do rochedo Ortoch. Ele inquietava muitas mulheres ortodoxas, que apareciam grávidas. Sendo procurado  por uma mulher o padre aconselhou, apalpe-lhe a cabeça, se encontrar pontas, pode estar certa, é o diabo.
        Gilliat cresceu e viveu na ilha com sua provável mãe que faleceu quando este era adolescente. Ninguém sabia exatamente o parentesco entre os dois e nem a origem. Ele era rústico, tornou-se feroz. Era solitário, isto causava espanto já que sua casa era mal-assombrada antes da vinda deles para a ilha.
        Passava a noite nos penhascos e tocava uma bagpipe (gaita escocesa). Não o achavam pobre, possuía uma casa e alguma terra. Perguntado por uma rapariga quando se casaria, respondeu-lhe: "Casar-me-ei quando se casar a Rocha que Canta".  Era uma pedra que inspirava desconfiança. Um galo invisível cantava próximo dela.
      O narrador aponta duas características diferentes para Gilliat: de um lado o diabo (pela esquisitice que ao mesmo tempo levava ao preconceito) por outro lado, o curandeiro (curava com ervas de sua propriedade, panarícios e febres,...)
      Tinha uma canoa e pescava nas horas de descanso.
      As raparigas o achavam feio. Talvez fosse bonito. Assemelhava-se a um bárbaro antigo e era tisnado pelo sol.
      As moças da ilha eram boas esterqueiras e por este motivo arrumavam casamento. Apanhavam os estercos de vaca e jogavam na parede para aquecimento das casas, com as mãos.
      Gilliat nasceu piloto. Piloto do mar. Comprou uma pança, bojuda e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas asas que se batiam alternadamente, conforme o vento, e supriam a quilha. Era mastreado na frente o que aumentava a força de tração do velame. O mastro não impedia a carga. Era uma pança sólida, pesada e suportava bem o mar. Nenhum pescador conseguiu arribar o barco. Gilliat tentou: empurrou o remo e depois a grande escota e tantas outras manobras e fez-se ao largo em direção a barra. Um forte vento sul empurrou-a carregada de pedras e entrou em Saint Simpson.
      Pescava na pança e dava os peixes aos pobres. Era marceneiro, ferreiro, fabricante de carros (calafates), e um pouco mecânico. Possuia uma bigorna e uma pequena forja. Fez uma âncora e substituiu os pregos por   cavilhas, deixando-a em boas condições.
       Os antigos habitantes de Guernesey arrastados pela beleza da vista admiravam a beleza das rochas da ilha que talhadas pelo vento formavam figuras: a Cadeira de Gild Holm-Ur em francês Qui-Dort-Meurt (Quem-dorme-morre) tradução rústica.
        Gilliat sentava-se ali. Sonhava. A maré subia. Morria-se afogado naquele lugar. Até 1822, era uma novidade um navio no canal da Mancha. Franceses e ingleses se cruzavam. Se partiam: "Boa viagem!; se chegavam "Welcome". As  ilhas  do canal da mancha iam se fazendo  inglesas, mas a língua era a francesa " a velha língua do mar" para definir lados e peças do navio. O narrador chamou de língua autóctone. O francês das ilhas costumava empregar a expressão "peguei-te inglês" para um inglês que caía numa armadilha pelo canal.
         Aparece na narrativa dois marinheiros selvagens. O primeiro é Gilliat e o segundo é Lethierry. Sendo  este último, elegante, admirador de lindas mulheres de mãos alvas, adotou sua afilhada órfã, filha de um irmão que ele teve, a Déruchette. Esta cresceu e tornou-se exigente, provável herdeira do tio. Tocava no piano "Bonny Dundee". Gilliat executava a mesma canção na bagpipe, próximo a casa de Déruchette, nas noites escuras e sempre no mesmo horário e ela não gostava.
          Lethiery não era superticioso, não recuava nas tempestades. Possuia a Durande, um navio que lhe rendeu muito dinheiro, e pretendentes a Déruchette.
         Já cansado e sentindo-se velho, entregou a Durande ao capitão Clubin, homem que escondia, debaixo de um véu, um crime. Foi o primeiro a possuir um revólver na ilha causando alguma desconfiança.
     Cobrou uma conta para Lethierry, que considerava perdida. Eram 60.000 francos que Clubin ficava pensando em transformá-los em 600.000 francos quem sabe pela América. De passagem por alguns portos fez carregamento de bois, fardos, sabão, couro, chá e outros. Havia seis passageiros e sete tripulantes.
     A linha reta do mar nem sempre é a linha lógica. Os navios fazem um trajeto e o barco a vela outro. O mar e o vento fazem um composto de forças. O navio é um composto de máquinas. As forças são máquinas infinitas, as máquinas são forças limitadas. Trava-se um combate que se chama navegação. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhe o itinerário. A Durande andava maravilhosamente bem.
     Clubin tinha um plano: fazia desaparecer o navio, atiraria-se ao mar,  uma hora a nado, só uma milha, estava no Hanois, próximo ao formidável rochedo, Douvres. Era medonho o recife ali isolado. O nevoeiro, os escondera. Eram gêmeas as rochas. Parecia perfeito para o plano, mas tinha os seus perigos. Um outro maciço próximo parecia próprio para galgá-lo. Chama-se Homem. Esta rocha era ainda mais alta que as Douvres e ficava a cinco léguas do navio. Para o náufrago, o impossível. A morte por frio. Os 60.000 francos de nada serviriam.Não era Hanois. Era a captura, agonia, o sepulcro. Poderíamos arriscar a dizer que era a justiça divina já que precisava pagar por um crime, dois.
     Soprava o vento. Os bois berravam no porão. A neblina cobrindo tudo, o céu que reaparecia e ficava noites em questões de segundos. Era o horror. Clubin tinha a força de um touro. O mar não podia com ele. Era sóbrio e frio. Parecia simplório. Certa vez disse ao taberneiro: "Restitui-lhe 75 cêntimos, que cobraste a menos quando estive aqui..." 
     Aconselhou-lhe um capitão amigo, não saia. Os cães tem o pelo molhado, os vermes saem do chão e as moscas mordem. Ouve-se um sino ao longe. Tudo indicava que teria nevoeiro. Não lhe digo que parta. Temo mais o nevoeiro que o furacão.
     Clubin errara o caminho. Outros navegadores, no passado, também. Arquiteto laborioso de sua própria emboscada. A tempestade, a noite que se aproximava, a Durande levantada pelo mar, ora pela esquerda, ora pela direita, o demônio tomou seu lugar. Os bois, a carga, o timoneiro, ébrio. Aquele que se cobria com uma armadura rígida, vivia numa pele de homem de bem, acreditava estar bem sucedido. Era o fantasma da retidão. O açúcar no veneno.
      A situação era desesperadora. A Durande naufragara em plano enclinado de popa e proa. Todos salvos pela chalupa, ele, o capitão ficou.
       Estava a 200 metros do rochedo Homem, próximo ao porto de St. Pirre. Era fácil atingi-lo a nado. Despiu-se, amarrou os francos a cintura e jogou-se  ao mar.
     Perdeu-se a Durande nos rochedos Douvres antes do por-do-sol, cochichavam os grupos em terra. O capitão portara-se com dignidade, ficara  no navio. Que homem!
     Lethiery,
o marinheiro, perdera sua obra-prima. Pobre velho! Déruchette lacrimosa.
     Quem iria aos rochedos para salvar o navio, a máquina talvez. Ninguém. Era arriscado. E os paredões. Impossível. Quem ali descia não subia jamais. Se existisse alguém que se arriscasse a chegar a Durande, Déruchette 
se casaria com ele e dava a palavra de honra a Deus.
     
Gilliat,
o engenheiro, se apresentou.
      Partiu com a pança, não esqueceu de nada. Os dois rochedos e o cadáver da
Durande... Era dia claro quando Gilliat chegou
. O escolho era horrível, altivo e arrogante. Impossível atracar. O navio vencido, o abismo vitorioso.
      Deitou a sonda muitas vezes, fazia um desembarque de malotagem: um saco de biscoitos, um saco de farinha de centeio, carne defumada, água, camisas de lã, uma japona e uma pele de carneiro..
     Dali avistava a pequena ilha de Sark algumas milhas das ilhas Jersey (hoje paraíso fiscal) de grande movimento turístico.
      Travou-se uma luta para desembarcar ali. As rochas eram escorregadias e não havia um só lugar que fornecesse porto seguro. Amarrou a pança numa ponta do rochedo. Aproximou-se da  Durande que estava presa, suspensa, trabalho de furacão que tinha a torcido.  O navio quebrou-se como uma ripa. Um pedaço da popa, com a máquina, preso a garganta, entre os dois rochedos. A proa , rolada e levada pelo vento, deslocou-se para os bancos de pedra. Os bois mortos jogados no mar.
      Não podia permanecer ali, tudo era impossível. Não servia de fuga para um criminoso e nem para um ninho de pássaro.
      No rochedo Homem, havia uma plataforma, inacessível. A grande Douvre não podia subir. De fenda em fenda chega a
Durande, que estava no ar. Era sinistro. A tempestade foi pirata. Ninguém, nenhum animal estrangula a pedra como o ar. O vento morde, o mar devora. É um socar e um esmigalhar ao mesmo tempo, igual a pata de um leão, o golpe do mar.       A máquina estava salva o que não impedia de estar perdida.
      Gilliat prendeu alguns ganchos, tentou subir, bateu no rochedo, machucou-se. Atingiu a plataforma. Havia uma cava, uma bacia. Isso era bom. Parecia um túmulo de pedra. Acomodou-se.
      Ir e vir, subir e descer. Trabalhava desde o amanhecer até o deitar do sol. Comia.
      Gilliat visita uma caverna, grotas ferozes, demorava-se nelas, não era conveniente aquele lugar. A maré enchia rapidamente até o teto. Era um edifício debaixo do mar. Viu uma coisa nojenta, era um ente, uma aparência. Sinistra.
Ignorar convida a tentar. Saber, desconcerta às vezes, e desaconselha  a tentar.
              Gilliat gastava todas as suas forças, dificilmente as refazia. Estava magro. Pés descalços. Mãos e braços com chagas. Tinha fome, sede e frio. Esgotava-lhe a vida.
       Deu de comida aos pássaros e estes lhe indicaram o caminho da água. Comia concha crua, que serviam de refrigerante. Assava os caranguejos.
       A chuva gelada atravessava a roupa até a pele e da pele até os ossos. Estava abandonado, isolado e esquecido. Não havia mais o que comer, as mãos e os pés não curavam mais, dilacerados. A perda da força não esgotava a vontade. Cria e queria. Não sentia cansaço. Era um Jó bíblico.
        Onde começa o destino? Onde acaba a Natureza?
        
As enormidades da noite:
"Sou uma alma como vós" "Sou um abismo como tu".
              Gilliat fez um trapiche. A pança deveria subir com a maré. Argolas, correntes, roldanas, cabos eram o que precisava para transportar a máquina para a pança. Construiu um aparelho, viu as polés e verificou as emendas. Tudo examinado. Limou a argola que faltava. Houve um estalo, abriu-se o ventre da
Durande. Nem tudo estava acabado.        Gilliat trabalhava. Respondia o trovão com uma martelada. Fez um trapiche. Tinha fome. Tinha uma sede ardente. Tinha febre, talvez.

      O temporal. A chuva. A pança foi jogada. A claraboia estava quase concluída.
      A tempestade se afastou. Era só o começo. Outra se aproximava, do norte. Violento assalto. "Os marinheiros chamam isso de  vento de esborear. O vento sul tem mais água, o vento norte tem mais raios".
      As avalanches de neve que o mar ajunta, debaixo das quais engole rochedos de mais de 100 pés de altura. Tudo acontecia ali mesmo em Guernesey e em Jersey. O rolo do mar tapou tudo. Gilliat permanecia de pé. Realizou-se tamanho perigo. Fez-se a efração. Foi uma agonia de moribundo. O quebra mar despedaçado. Uma tábua bateu na cabeça. Este cismava trêmulo.
      Passava-se ali alguma coisa funesta. Era o lado da pança. Gilliat correu. A Durande se separou em duas. Era a catástrofe. A pança salva. O terrível se fez horrível. Nada mais horrendo. E a hora hedionda.
     Gilliat voltou a gruta. Pôs a faca nos dentes, desceu do alto das rochas e saltou na água. Entrou, havia um raio de luz. De repente, sentiu que lhe agarravam no braço.
       Um susto. Atirou-se para trás. Aquilo que era flexível como couro, sólido como aço e frio como a noite, vinha do buraco. Lambeu o corpo nu de Gilliat, apertou, queria beber-lhe o sangue.
        A angústia é muda. Nem um grito. O fantasma era enorme. Estava agarrado por correias e por muitas bocas. Gilliat não podia respirar. Era viscoso e tinha dois olhos. Era um polvo de 2,5 metros de diâmetro. O polvo odeia.  Hipócrita estrela-do-mar. Voraz. É peixe. É réptil. É um cefalópode.
        Nunca se deixe apanhar por um deles. Estão pelas rochas. Costuma desenrolar-se e atirar-se sobre  o infeliz.
        Amarelo com cor de poeira, é cinza, é camaleão. Irritado torna-se roxo. Tem a cor da gangrena. Aquele pavor tem seus amores e torna-se fosforescente a noite para amar.
      O polvo, pensa-se, pode levar um navio a pique. O  autor diz que viu um banhista sendo atacado por um, caçado e trazido para a praia media 4 pés ingleses de largura, com quatrocentos chupadores. O mostro agonizante afugentava todos de perto.
     O tigre devora. O polvo aspira. O primeiro come vivo e o segunde bebe vivo. Equivale a oito serpentes.
      Precisa agir. "Negais o vampiro, aparece o polvo". Esses vorazes são coveiros. Gilliat era a mosca na aranha.
     Havia um momento certo para vencer o polvo, como o touro. Este curva o pescoço, aquele estica a cabeça. Sentiu a sucção das 250 ventosas. Não soltou a faca. Ele olhava o polvo e o polvo olhava para ele. Sangrava e estava preso. Precisava de um só golpe. O centro da cabeça. Se lhe agarrasse o peito estava perdido.
     Gilliat esperou, golpe certeiro, no centro, ali, exatamente como aprendera. Fez a faca girar. Estava acabado.
      Salgou seu corpo ferido. Caminhou. Olhou para dentro da cava. Estremeceu.

 Alguma coisa ria para Gilliat. Era uma caveira. Esqueleto completo.  Quem era aquele homem? O que era aquilo envolto ao esqueleto?
     Um cinto intacto. A caixinha de ferro. Abria-se por molas. Estava enferrujada. Usou a faca. A caixa abriu-se. Papéis e 75.000 francos e mais 20 guinéus. Limpou o couro do cinto e leu: "Sr.Clubin".
     Ali travara-se uma luta entre dois monstros. Um agarrou o outro. Sinistras justiças. Clubin foi o engodo do polvo e alimento para os caranguejos.
     Precisava partir pela manhã, com a maré ainda baixa. Já era maio e os dias estavam longos.
    O cano da máquina acima da pança, estava coberto pela espuma da tempestade e tinha uma camada de sal. A pança fazia água. Precisava procurar o buraco a luz da lua.
     A lua desapareceu. Não tinha nada seco e nem um sebo para fazer uma lamparina, nem fogo, nada.
     Só tinha aquela roupa seca. Tirou. Ficou nu. Tremia. Tinha pressa.
    A solidão o envolvia. O vento assoviava. Já lutara corpo a corpo com o oceano.
   Trabalhou sem ferramentas adequadas, carregou fardos sem auxílio e resolveu problemas sem ciência. Comeu sem ter o que comer, bebeu sem ter o que beber e dormiu sem ter onde dormir.
     Venceu: a fome, a sede, o frio, a febre, o trabalho e sono.
     Depois da nudez, o elemento; depois da maré, a tempestade; depois da tempestade, o polvo e depois do polvo o esqueleto.
     Que ironia Clubin rindo para ele. O morto tinha razão. Via-se perdido. Via-se tão morto como ele.
     O inverno passado ali, a fadiga, o transporte da máquina para a pança, tudo isso não era nada diante do buraco feito na pança.
     Subiu o rochedo. Fechou os olhos...
     Parecia não acreditar, ele não estava morto. Suspirou. Vivia. O sol o aqueceu. O calor o abraçou.
     Consertada  a pança com o vento de feição e o mar admirável aportou em Saint-Simpson em Guernesey.
     Quem sabe se ao sair do escolho não entoasse a canção Bonny Dundee.
     Lethiery era prisioneiro da tristeza. No tempo que era feliz, Deus existia, em carne e osso, apertava-lhe a mão. Para ele tudo era negro. Não rezava.
     Déruchette raramente sorria. Parecia preocupada. Não fazia cortesia ao sol: "Bon...jour!... queira entrar". "Sua alegria apagava-se dia a dia, e cobria-se de poeira como a asa de uma borboleta que um alfinete atravessou".
     Lethierry recebeu uma carta de "Rontaine" dizendo que lhe mandara os 75.000 francos por Clubin.
     Deruchetty não perdera o hábito de sair ao jardim pela noite. Andava alguém por ali. Era Gilliat. Estava pálida, lágrima nos olhos.
Gilliat ouvia essas palavras: "Vejo-a todos os domingos e quintas; disseram-me que outrora a senhora não ia lá tantas vezes...Nunca lhe falei, era o meu dever; falo-lhe hoje, é meu dever... O Cashmere parte amanhã; foi por isso que vim... A senhora é pobre. Eu sou rico desde esta manhã. Quer-me por seu marido? ... tu és a minha noiva. Levanta-te e vem. Que o teto azul, onde estão os astros, assista a esta aceitação da minha alma para tua alma, e que o nosso primeiro beijo se misture ao firmamento!"
   Pela manhã Gilliat entra pela sala: "Ah! Meu Filho! Homem da bagpipe! Gilliat! Tocava o sino, te procurava. Onde esta ele? Tu és um anjo. Belisco-me. Tu és meu filho, és meu rapaz, és meu Deus. Nunca vi coisa assim. Vi parisienses que são uns satanáses. Não faziam isto. É pior que a Bastilha"...
"Vi os gaúchos lavrarem nos pampas, tendo por charrua um galho de árvore do comprimento de um côvado e por grade um feixe de espinhos puxados por corda de couro; colheram com isto grãos de trigo do tamanho de avelãs. Os gaúchos não valem dois caracóis perto de ti".     "Senhores, ele foi a Douvres!" Gilliat entrega-lhe os francos. "Compraremos pinho, carvalho, olmo. Que bela Durande vamos fazer, mais comprida. Dinheiro suficiente". "Casas com Déruchete". Gilliat respondeu: "Não a amo". "Há alguma coisa! Não amas Déruchette! Era então para mim que tocavas a bagpipe? Pois trate de amá-la. Só se casará contigo. Estás doente?

       Lethiery não foi ao casamento de Déruchette. Segundo o belo rito do casamento anglicano, o decano olhou em volta de si, e fez a solene pergunta:
     __ Quem dá esta mulher a este homem?
     __ Eu __ disse Gilliat.
     O noivo, Ebenezer e Déruchette sentiram uma vaga opressão através de sua felicidade.
     Depois de prometidos, o decano continuou.
     __ Onde está o anel?
     O noivo não tinha o anel.
     Repito aqui que quando Gilliat perdeu a mãe ficou desolado. A mãe lhe deixara duas arcas de carvalho. Dentre os móveis que ficou  havia uma espécie de cesta (caixa, canastra) que Gilliat abriu e encontrou um enxoval do mais puro linho e belas roupas com um bilhete "Para tua mulher quando te casares".
     __ Decano, está aqui o anel. Gilliat tirou do dedo. Comprado, provavelmente no dia em que chegou das Douvres, para Déruchette.
     O casal se ajoelhava diante de Deus: "Em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo". Gilliat curvava-se ao destino
monstro declarado seu marido. O anjo prestes a partir.
      Gilliat não teve outra ocupação senão a de casá-los; fez tudo: respondeu por Luthiery.
       Dentro de poucos minutos estariam na Angrazinha. Gilliat os acompanhou.
       __ Senhora __ disse ele __ achará a bordo do Cashmire uma caixa com objetos de mulher. Foi minha mãe que mo deu, com um bilhetinho: "Para tua mulher quando te casares".
     
__ Por que não há de guardá-lo para sua mulher quando se casar.
      __ Não me casarei nunca.
      Gilliat seguiu para a barra e o Cashmire abriu as velas. A manhã tinha um quê de nupcial. Ouvia-se no ar um grito de saudação.
A vida que é a esposa, abraçava o infinito, que é o esposo.       Na relva as margaridas, as violetas, as abelhas trabalhando...
      Galgou o parapeito e desceu os arrecifes. Era ali que ficava a Cadeira de Gild-Holm-Ur. Passava de um recife para outro. Uma pescadora gritou:
       __ Cuidado. A maré esta enchendo. Gilliat continuou a andar. Acabava a terra...
       Subiu. Olhou. O Cashmire iria passar por ali. O casal parecia como pássaros. O silêncio era celeste.
      __ Olha! Parece um homem no rochedo.
      Gilliat não tirava os olhos do navio. A água chegava-lhe a cintura. Passou-se uma hora. Passou-se mais uma hora. O Cashmire era uma mancha...
      Foi diminuindo, diminuindo...
      No momento em que o navio se dissipava no horizonte a cabeça de Gilliat desaparecia debaixo da água. Tudo acabou. Só restava o mar. FIM (resumido por Mª de Lourdes Cardoso)

Este resumo, foi feito no lançamento ao mar no porto da capital de Porto Alegre, o barco de Ariel Alves Duarte, em agosto de 2010, mês de seu aniversário.

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